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<channel><title><![CDATA[Raistapartisse - Ensaios de Historiografia]]></title><link><![CDATA[http://www.raistapartisse.com/ensaios-de-historiografia]]></link><description><![CDATA[Ensaios de Historiografia]]></description><pubDate>Sun, 31 Mar 2024 22:43:54 -0700</pubDate><generator>Weebly</generator><item><title><![CDATA[Meditações sobre Pombal e enviesamento historiográfico]]></title><link><![CDATA[http://www.raistapartisse.com/ensaios-de-historiografia/meditaes-sobre-pombal-e-enviesamento-historiogrfico]]></link><comments><![CDATA[http://www.raistapartisse.com/ensaios-de-historiografia/meditaes-sobre-pombal-e-enviesamento-historiogrfico#comments]]></comments><pubDate>Mon, 22 Apr 2013 02:43:44 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.raistapartisse.com/ensaios-de-historiografia/meditaes-sobre-pombal-e-enviesamento-historiogrfico</guid><description><![CDATA[ Antes de mais, e se o historiador &eacute; sempre condicionado pelo espa&ccedil;o-tempo em que existe, n&atilde;o menos &nbsp;&eacute; o seu discurso acerca do real, ou neste caso acerca do que sup&otilde;e ter ocorrido no passado, tendo como refer&ecirc;ncia sempre as &lsquo;fontes&rsquo;, ou seja, a &lsquo;prova&rsquo; material que autoriza determinada interpreta&ccedil;&atilde;o.  A politiza&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria, e de como se faz a hist&oacute;ria, &eacute; inevit&aacute;vel,  [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<blockquote style="text-align:left;"> <font color="#3366FF">Antes de mais, e se o historiador &eacute; sempre condicionado pelo espa&ccedil;o-tempo em que existe, n&atilde;o menos &nbsp;&eacute; o seu discurso acerca do real, ou neste caso acerca do que sup&otilde;e ter ocorrido no passado, tendo como refer&ecirc;ncia sempre as &lsquo;fontes&rsquo;, ou seja, a &lsquo;prova&rsquo; material que autoriza determinada interpreta&ccedil;&atilde;o.<br /><br />  A politiza&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria, e de como se faz a hist&oacute;ria, &eacute; inevit&aacute;vel, pois a escolha e tratamento das mat&eacute;rias obedece a crit&eacute;rios e exposi&ccedil;&otilde;es que ora enaltecem ora tornam obscuros certos assuntos, consoante (no m&iacute;nimo da boa f&eacute;) a esfera de subjectividade do historiador.<br /><br />  A desmontagem de um discurso estranhamente inquinado e por vezes contradit&oacute;rio exige que se dedique por si s&oacute; e por motivos proped&ecirc;uticos, parte do trabalho &agrave; an&aacute;lise da metodologia historiogr&aacute;fica, quando presente.<br /><br />  S&atilde;o demasiadas as insufici&ecirc;ncias presentes, a nosso ver, no tratamento de Nuno Monteiro dado ao &lsquo;tempo de Pombal&rsquo;, para que seja apenas distrac&ccedil;&atilde;o, (veja-se Anexo 1).<br /><br />  O tratamento dos assuntos &eacute; demasiado parcelar at&eacute; para uma obra com a ambi&ccedil;&atilde;o sint&eacute;tica e cronol&oacute;gica como esta. E &eacute; nos equ&iacute;vocos sistem&aacute;ticos que procur&aacute;mos encontrar o motivo pelo qual um autor que domina os problemas e apresenta capacidade de os pensar, produz t&atilde;o &lsquo;fraca&rsquo; historiografia. A in&iacute;cio pens&aacute;mos que fosse uma forma de diferencia&ccedil;&atilde;o para com a tradi&ccedil;&atilde;o historiogr&aacute;fica de molde a sedimentar um espa&ccedil;o de &lsquo;vanguarda&rsquo; ou &lsquo;revolu&ccedil;&atilde;o&rsquo; relativamente ao autor e &agrave; comunidade de historiadores nacional.<br /><br />  Ac&ccedil;&atilde;o com sucesso, tendo em vista o &ecirc;xito editorial da obra.<br /><br />  N&atilde;o alheio ao mesmo, podem estar algumas posi&ccedil;&otilde;es &lsquo;heterodoxas&rsquo; ou pol&eacute;micas no tratamento dos assuntos, especialmente quando o que &eacute; analisado pertence &agrave; imag&eacute;tica historiogr&aacute;fica como &eacute; o caso da figura do Marqu&ecirc;s de Pombal.<br /><br />  Parece ser esse um modus operandi recorrente, garante da projec&ccedil;&atilde;o de um &nbsp;car&aacute;cter inovador da obra, o de mostrar a uma luz ambiente a fal&ecirc;ncia das concep&ccedil;&otilde;es historiogr&aacute;ficas tradicionais, e com manipula&ccedil;&otilde;es sem&acirc;nticas e parcialidade grosseira, pintar um &lsquo;novo&rsquo; quadro sobre o tema.<br /><br />  E assim fingir que se faz &lsquo;Hist&oacute;ria&rsquo;.<br /><br />  Carrega-se assim o trabalho numa miss&atilde;o duplicada, por um lado analisar o tema proposto previamente, por outro expor aquilo que se consideram ser as ambival&ecirc;ncias da obra que serve de ponto de partida &agrave; an&aacute;lise.<br /><br />  Essa tarefa, ser&aacute; maioritariamente remetida para anexos, ficando o restante, como corpo principal, que oportunamente, aos anexos remeter&aacute;.<br /><br />  Pre&acirc;mbulo introdut&oacute;rio 1750-1777<br /><br />  Os 27 anos de concretiza&ccedil;&atilde;o do plano pombalino, s&atilde;o tradicionalmente divididos em 4 pontos program&aacute;ticos:<br /><br />  a)modernizar Portugal<br /><br />  b)melhorar as rela&ccedil;&otilde;es comerciais com o exterior<br /><br />  c)garantir a salvaguarda dos interesses de Estado(conceito que Pombal formula na realidade portuguesa com as suas reformas)<br /><br />  c)sustentar Portugal como uma pot&ecirc;ncia europeia<br /><br />  Nuno Monteiro acrescenta uma quinta motiva&ccedil;&atilde;o que seria a acumula&ccedil;&atilde;o de poder pessoal, sem discernir, se essa acumula&ccedil;&atilde;o por vezes brutal, era causa destes pontos program&aacute;ticos ou se constitu&iacute;a um efeito destes.<br /><br />    A moderniza&ccedil;&atilde;o de Portugal encontra eco inspirador naquilo que Sebasti&atilde;o Jos&eacute; experiencia no in&iacute;cio da sua carreira como funcion&aacute;rio do Estado, quer em Londres, quer em Viena.<br /><br />  N&atilde;o &eacute; uma decis&atilde;o fortuita, uma vez que Pombal parece para ela ter-se preparado a vida inteira, quer na sua procura de voca&ccedil;&atilde;o, no ex&eacute;rcito por exemplo, quer na ac&ccedil;&atilde;o continuada de estudar legisla&ccedil;&atilde;o e economia num sentido pr&aacute;tico, com a ef&eacute;mera passagem pela Universidade.<br /><br />  Este &eacute; um dos sentidos que queremos destacar, Pombal segue um programa, no m&iacute;nimo um pathos e &eacute; com essa no&ccedil;&atilde;o em mente que se deve olhar os acontecimentos que Nuno Monteiro interpreta sob a capa do fortuito ou casu&iacute;stico.<br /><br />  A moderniza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s passaria por duas linhas de ac&ccedil;&atilde;o, uma relativa &agrave; estrutura e outra relativa &agrave;s mentalidades e &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es.<br /><br />  Essa mesma moderniza&ccedil;&atilde;o implica uma centraliza&ccedil;&atilde;o do Estado, como agente de mudan&ccedil;a, e a garantia quer de afirma&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s perante as outras na&ccedil;&otilde;es europeias, quer numa linha que o Marqu&ecirc;s considerava ser a do progresso.<br /><br />  V&ecirc;-se claramente que a pol&iacute;tica econ&oacute;mica assumida visa dotar o pa&iacute;s das condi&ccedil;&otilde;es para esta agenda, e que a reforma do Estado passaria pela concentra&ccedil;&atilde;o de poderes na Coroa e limita&ccedil;&atilde;o dos outros poderes dentro do espa&ccedil;o p&uacute;blico.<br /><br />  Tradicionalmente, a pequena na&ccedil;&atilde;o sempre jogou no tabuleiro europeu numa pol&iacute;tica de alian&ccedil;as que lhe permitisse manter a integridade territorial e os seus interesses geoestrat&eacute;gicos, portanto aqui nada foi inventado, no entanto, se noutros momentos faltaram a firmeza de afirma&ccedil;&atilde;o desses pr&oacute;prios interesses, com Pombal, raras foram as ocasi&otilde;es em que eles n&atilde;o foram defendidos, como atestam as sucessivas interac&ccedil;&otilde;es diplom&aacute;ticas com o reino ingl&ecirc;s, pot&ecirc;ncia hegem&oacute;nica da &eacute;poca.<br /><br />  De que forma partilha Pombal o zeitgeist do seu tempo, e como &eacute; que este esp&iacute;rito do seu tempo se pode ver reflectido nas medidas econ&oacute;micas que preconizou?<br /><br />  1)O pombalismo<br /><br />  O pombalismo &eacute; um termo sujeito a debate na medida em que cristaliza aquilo que foi um fen&oacute;meno colectivo e n&atilde;o apenas a ac&ccedil;&atilde;o de um &uacute;nico indiv&iacute;duo.<br /><br />  As ideias &lsquo;reformistas&rsquo; como Monteiro nota, n&atilde;o s&atilde;o exclusivas de Pombal.<br /><br />  O esteio cient&iacute;fico e ideol&oacute;gico do pombalismo assenta nos pensadores cl&aacute;ssicos dos movimentos reformistas europeus, na pol&iacute;tica John Locke, e na ci&ecirc;ncia Descartes e Newton, esteios do capitalismo proto industrial moderno, (do qual, na nossa opini&atilde;o Pombal lan&ccedil;ou as bases em Portugal), Locke com a enuncia&ccedil;&atilde;o do jusnaturalismo, e Descartes e Newton como base de sustenta&ccedil;&atilde;o de uma legitima&ccedil;&atilde;o e at&eacute; miss&atilde;o natural de o pr&oacute;prio Homem dominar a Natureza.<br /><br />  Curioso notar, especialmente na bibliografia que Pombal consome, a preocupa&ccedil;&atilde;o em todos os assuntos relativos &agrave; Inglaterra, com&eacute;rcio interno e externo, assuntos coloniais, corpora&ccedil;&otilde;es, marinha, navega&ccedil;&atilde;o e finan&ccedil;as, a constitui&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, &eacute; constante.<br /><br />  Pombal absorve informa&ccedil;&atilde;o e prepara-se, estudando e agindo.<br /><br />  &laquo;Alg&uacute; conhecimento que tinha destas m&aacute;ximas produzio em mim o dezejo de procurar instruirme quanto me foi poss&iacute;vel nos fundamentos por que (apezar dellas) haviam tantas cortes sabias e providentes monopolizado o comercio oriental por pratica commua.Em efeito de alguns estudos e muitas conferencias que sobre esta mat&eacute;ria tive com grandes professores da arte do comercio,vim finalmente a perceber o que vou expor a V. Imm.&ordf;.&raquo;<a href="#_ftn1" title="">[1]</a><br /><br />            Encontram-se entre as obras que frequentou, na sua biblioteca pessoal, nomes t&atilde;o &lsquo;distantes&rsquo; do Iluminismo como Voltaire, Pascal, Grotius, Montesquieu, Thomas More, ou&hellip;John Locke.<br /><br />  O que parece no m&iacute;nimo contrapor a imagem de provinciano, que alguns autores dele apresentam, como &lsquo;(&hellip;)um ambicioso burgu&ecirc;s da prov&iacute;ncia.&rsquo;<a href="#_ftn2" title="">[2]</a><br /><br />  Pombal inscreve-se na mudan&ccedil;a ocorrida na Europa de meados do s&eacute;culo XVIII, e que em Portugal tomou eco em alguns intelectuais e nobres pr&oacute;ximos da Coroa, atrav&eacute;s de uma inquieta&ccedil;&atilde;o profunda acerca de um sentimento de inadequa&ccedil;&atilde;o da realidade portuguesa em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; restante Europa, e que pode adquirir o significado de um sentimento de &lsquo;decad&ecirc;ncia&rsquo; de Portugal.<br /><br />  Esses actores preocupados, que Monteiro denota como &lsquo;reformistas&rsquo;, comungando de inquieta&ccedil;&otilde;es comuns, a saber:<br /><br />  a)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; duvidavam das vantagens do Tratado de Methuen;<br /><br />  b)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; defendiam a promo&ccedil;&atilde;o de manufacturas no reino;<br /><br />  c)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; consideravam excessivo o peso das ordens religiosas;<br /><br />  d)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; olhavam com relativo cepticismo a &lsquo;actualidade&rsquo; da agricultura;<br /><br />  e)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; criticavam a actua&ccedil;&atilde;o da Inquisi&ccedil;&atilde;o;<br /><br />  f)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; pretendiam mudar os m&eacute;todos e conte&uacute;dos de ensino;<br /><br />  g)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; denunciavam o puritanismo de alguns nobres de elevada posi&ccedil;&atilde;o.<br /><br />  Mas mesmo estes &lsquo;reformistas&rsquo;, segundo Monteiro, eram mais movidos pela ideia de uma opini&atilde;o negativa dos estrangeiros (a maior parte dos quais Protestantes) acerca de Portugal, e que era expl&iacute;cita, que por um dinamismo genu&iacute;no e espont&acirc;neo de reforma.<br /><br />  Pombal &eacute; norteado por duas directrizes que fixam a sua ac&ccedil;&atilde;o, no que concerne &agrave; economia.<br /><br />  A primeira visa reorganizar de acordo com os conhecidos par&acirc;metros mercantilistas, o com&eacute;rcio de forma a melhorar o saldo comercial nas rela&ccedil;&otilde;es com o exterior.<br /><br />  A segunda implica uma vis&atilde;o geoestrat&eacute;gica na qual a guerra comercial e a decorrente soberania nacional, estavam no centro das suas preocupa&ccedil;&otilde;es.<br /><br />  As suas concep&ccedil;&otilde;es mercantilistas nunca o abandonar&atilde;o, de molde semelhante ao da longevidade que essa teoria econ&oacute;mica tem na Europa, e da qual a vers&atilde;o de Colbert, Sebasti&atilde;o Jos&eacute; aprecia. &Eacute; a ideologia econ&oacute;mica dominante de todo o s&eacute;culo XVIII, e identifica a riqueza das na&ccedil;&otilde;es na acumula&ccedil;&atilde;o de divisa / metais preciosos e na redu&ccedil;&atilde;o do desfasamento da balan&ccedil;a comercial entre importa&ccedil;&otilde;es e exporta&ccedil;&otilde;es, procurando diminuir as primeiras e potenciar as segundas.<br /><br />  Desta forma visa Pombal estimular o tecido produtivo nacional, e atrav&eacute;s do proteccionismo cimentar o imberbe mercado interno.<br /><br />  N&atilde;o toca na agricultura, at&eacute; porque era o &uacute;ltimo reduto da nobreza senhorial.<br /><br />  Ao criar as condi&ccedil;&otilde;es para a forma&ccedil;&atilde;o de m&atilde;o-de-obra qualificada, despoleta uma fase proto industrial, da produ&ccedil;&atilde;o capitalista e de um esbo&ccedil;o de classe m&eacute;dia, e que s&oacute; se repetiria no nosso pa&iacute;s na industrializa&ccedil;&atilde;o tardia no s&eacute;culo XIX.<br /><br />  Atrav&eacute;s de Pombal, Portugal moderniza-se e criam-se as bases poss&iacute;veis na altura, de uma estrutura capitalista num sistema pol&iacute;tico de Antigo Regime, iniciando a gest&atilde;o das for&ccedil;as espont&acirc;neas da acumula&ccedil;&atilde;o capitalista e que s&oacute; se completam no final de Setecentos, ap&oacute;s o seu ex&iacute;lio, com privatiza&ccedil;&otilde;es de relevo, que ali&aacute;s conhecem (a par de nacionaliza&ccedil;&otilde;es) alguns exemplos ainda durante a sua ac&ccedil;&atilde;o.<br /><br />    Subsume-se assim, a orienta&ccedil;&atilde;o politica e econ&oacute;mica, em moderniza&ccedil;&atilde;o e soberania.<br /><br />  Para conseguir algo semelhante, havia que colidir com interesses, interesses esses entranhados na sociedade portuguesa desde a funda&ccedil;&atilde;o da nacionalidade, como os do clero e da nobreza, nobreza esta desde cedo afrontada com o poderio ou capacidade que Sebasti&atilde;o Jos&eacute; demonstra ter mesmo que proveniente de aristocracia de segundo plano.<br /><br />  Desde cedo, que &eacute; algu&eacute;m que ocupa posi&ccedil;&otilde;es destinadas a um grupo relativamente pr&eacute; determinado, e a cujas ideias de autonomia nacional (ainda que &lsquo;nacionalidade&rsquo; seja um conceito discut&iacute;vel para esta &eacute;poca) e centraliza&ccedil;&atilde;o de poderes, n&atilde;o deveriam agradar a quem contra ele sempre se insurgiu, e conspirou, como foi o caso da alta nobreza, e em particular dos T&aacute;voras.<br /><br />  Combina-se assim a orienta&ccedil;&atilde;o mercantilista, com o refor&ccedil;o de um estado central sob absolutismo r&eacute;gio, e temos enunciadas as caracter&iacute;sticas gerais deste per&iacute;odo.<br /><br />  2)A economia<br /><br />  &nbsp;<br /><br />  Pombal encara, coerentemente com o esp&iacute;rito europeu da &eacute;poca, a teoria e pr&aacute;tica econ&oacute;mica sob um ponto de vista de guerra comercial. A corrida &agrave; autonomia financeira nesta fase de&nbsp; &lsquo;proto industrializa&ccedil;&atilde;o&rsquo;, e cujo culminar vir&aacute; a ser a industrializa&ccedil;&atilde;o inglesa, (que ganha a &lsquo;guerra&rsquo; em grande parte por dispor dos recursos em divisas para o investimento), era um assunto de &lsquo;Estado&rsquo; para os homens de Setecentos.<br /><br />  O Estado moderno cada vez menos se pode dar ao luxo de dividir os esfor&ccedil;os, numa luta concorrencial por poderio extra fronteiras, em contrapoderes intestinos.<br /><br />  As medidas pombalinas iniciais resumem-se de seguinte forma:<br /><br />  -impugna um projectado tratado comercial com Espanha, n&atilde;o descurando a diplomacia, mas n&atilde;o sobrepondo nada aos interesses nacionais;<br /><br />  -publica um novo sistema de cobran&ccedil;as dos quintos do ouro do Brasil<br /><br />  -institui no Par&aacute; e Maranh&atilde;o uma Companhia Geral de Com&eacute;rcio em moldes semelhantes aos que havia estudado em Inglaterra;<br /><br />  -cria uma Junta de Com&eacute;rcio;<br /><br />  -funda a Companhia Geral de Agricultura da vinhas do Alto Douro, de forma a sustentar a sua qualidade e manter est&aacute;vel a valoriza&ccedil;&atilde;o de um produto nacional que seria fonte de receitas.<br /><br />  Ou seja, nestas ac&ccedil;&otilde;es, torna-se claro n&atilde;o s&oacute; que Pombal est&aacute; enquadrado com o que se fazia no resto da Europa, na medida em que enquadra a sua reforma em moldes mercantilistas de forma a melhorar as rela&ccedil;&otilde;es de troca com o exterior, e tenta no mesmo sentido fomentar o com&eacute;rcio interno, dando-lhe &lsquo;estofo&rsquo;.<br /><br />  Segundo Nuno Monteiro, Pombal seria um valido do s&eacute;culo XVII transposto para o s&eacute;culo XVIII, mas ao que parece, estava bem actualizado com a realidade geopol&iacute;tica e tecnol&oacute;gica do seu tempo, e na Europa as tend&ecirc;ncias administrativas n&atilde;o diferiam de forma escandalosa com aquilo que se passava em Portugal. Sem querer justificar, qualquer &lsquo;idiossincrasia&rsquo; pol&iacute;tico-administrativa no Portugal pombalino, deve ser enquadrada no marasmo ou decad&ecirc;ncia que era mais que um sentimento, no in&iacute;cio da &eacute;poca que coincide com a estreia como diplomata de Sebasti&atilde;o Jos&eacute; de Carvalho e Melo (veja-se Anexo 2).<br /><br />  Da mesma forma, quando Monteiro afirma que na economia e na sociedade, as reformas pombalinas s&oacute; por si n&atilde;o produziram efeitos marcantes, no longo prazo.<br /><br />  Sendo a Hist&oacute;ria composta de in&uacute;meras vari&aacute;veis, mesmo que se tomasse a peito esta afirma&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se poderia negar que a dial&eacute;ctica pelo tempo &eacute; condicionada pelo que antes se passou, e que por mais pequeno que fosse o legado pombalino, alguma influ&ecirc;ncia teria de ter nos processos ulteriores. Mas as altera&ccedil;&otilde;es promovidas por Pombal n&atilde;o foram insignificantes, ainda que na fase da Reviradeira, tenha havido um ant&iacute;doto a estas mesmas medidas. A fixa&ccedil;&atilde;o de algumas ind&uacute;strias, umas poucas at&eacute; chegaram ao s&eacute;culo XX, parecem querer desmentir Monteiro, que se &eacute; &aacute;vido de retirar import&acirc;ncia hist&oacute;rica a Pombal, o &eacute; na exacta medida em que &lsquo;exige&rsquo; demais &agrave; sua figura. Parece Monteiro, por exemplo esperar que Pombal operasse uma reformula&ccedil;&atilde;o social que s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel ocorrer em Fran&ccedil;a em 1789 <a href="#_ftn3" title="">[3]</a>, ou parece esperar que Pombal por si s&oacute; lance Portugal na industrializa&ccedil;&atilde;o moderna, em moldes semelhantes ao que aconteceu na Inglaterra e na B&eacute;lgica. <br /><br />        Note-se que:<br /><br />  a)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pombal enquadra-se, mutatis mutandis num eixo reformista que se inicia com o Conde da Ericeira, D. Luis Menezes, que cria um momentum entretanto perdido, da j&aacute; citada proto industrializa&ccedil;&atilde;o, exactamente porque Portugal n&atilde;o conseguiu acumular capitais, Portugal n&atilde;o conseguiu dinamizar o mercado interno, Portugal n&atilde;o conseguiu livrar-se sen&atilde;o tardiamente das estruturas de Antigo Regime, e assim se fechou e continuou a fechar at&eacute; porque a sua Marinha perdeu import&acirc;ncia gradualmente at&eacute; n&atilde;o ser apenas que um resqu&iacute;cio, e perder a massa cr&iacute;tica da inova&ccedil;&atilde;o, que podia ser por ela potenciada, como sempre o havia feito, nas trocas com os portos do Norte da Europa, compensando a posi&ccedil;&atilde;o ultraperif&eacute;rica do nosso territ&oacute;rio.<br /><br />  b)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Politicamente, &agrave; considera&ccedil;&atilde;o de um Pombal, tomado como um anacronismo, pode- contrapor-se que num pa&iacute;s desprovido de burguesia empreendedora, cuja classe mais esclarecida era a nobreza das merc&ecirc;s, altamente conservadora, e por vezes subversiva para com o poder r&eacute;gio - que era ali&aacute;s o &uacute;nico agente de mudan&ccedil;a poss&iacute;vel perante este contexto - a f&oacute;rmula descrita por Monteiro s&oacute; pode expor-se como genial, na medida em que apenas medidas mercantilistas apoiadas numa inspira&ccedil;&atilde;o por Colbert, a par de um elemento nobre, mas &lsquo;fora&rsquo; da nobreza, cuja ac&ccedil;&atilde;o seria modernizar, nivelar e concentrar o Estado como ferramenta de inova&ccedil;&atilde;o, poderiam adaptar-se e &lsquo;resultar&rsquo; na realidade portuguesa.<br /><br />  E nem o pr&oacute;prio Nuno Monteiro parece negar o facto quando afirma que &lsquo;Foi verdadeiramente no reinado de D. Jos&eacute; que se inaugurou em Portugal a interven&ccedil;&atilde;o reformadora e autorit&aacute;ria do Estado e do Governo em m&uacute;ltiplos dom&iacute;nios da sociedade.&rsquo;<a href="#_ftn4" title="">[4]</a><br /><br />  Arquitectonicamente, uma cidade geom&eacute;trica, igual e virada para o funcional e para o com&eacute;rcio, sem pal&aacute;cios e com o Terreiro do Pa&ccedil;o a passar para Pra&ccedil;a do Com&eacute;rcio, parecem indiciar que afinal, mesmo este despotismo r&eacute;gio esclarecido n&atilde;o seria mais que uma ferramenta poss&iacute;vel para a moderniza&ccedil;&atilde;o de Portugal. Mas Monteiro prefere real&ccedil;ar que a cidade demorou muito a ser reconstru&iacute;da, o que at&eacute; &eacute; negado por relatos de embaixadores, nomeadamente o franc&ecirc;s, em Lisboa, quando reporta a vertiginosa reconstru&ccedil;&atilde;o.<br /><br />    c)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A uma vis&atilde;o da ac&ccedil;&atilde;o casu&iacute;stica de Pombal, facilmente com trabalho de consulta se averigua o plano meticulosamente estudado durante 39 anos (1738-1777), contrapomos esta vis&atilde;o de planeamento longamente amadurecido.<br /><br />      Monteiro afirma &laquo;Em grande medida, foi um &eacute;mulo dos ministros/favoritos reformadores do s&eacute;culo XVII. E muito do que fez foi decidido em fun&ccedil;&atilde;o das circunst&acirc;ncias.&raquo;<a href="#_ftn5" title="">[5]</a> o que contrasta com &laquo;(&hellip;)levou ao alargamento da esfera de interven&ccedil;&atilde;o do Estado enquanto centro de decis&atilde;o pol&iacute;tica, com a definitiva afirma&ccedil;&atilde;o das secretarias de Estado enquanto centro da decis&atilde;o pol&iacute;tica &ndash; surgindo assim o que podemos come&ccedil;ar a chamar &lsquo;governo&rsquo; com o sentido pr&oacute;ximo aos dias de hoje.&raquo;<a href="#_ftn6" title="">[6]</a>, o que parece ser uma contradi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o fosse o facto de a uma segunda leitura, o leitor ser levado a pensar que a fortifica&ccedil;&atilde;o de um &lsquo;Governo&rsquo; coincide com a inten&ccedil;&atilde;o de refor&ccedil;o dos poderes pr&oacute;prios do valido, mesmo em rela&ccedil;&atilde;o ao rei.<br /><br />  Esta &eacute; a inten&ccedil;&atilde;o de Monteiro, mas uma leitura objectiva e atenta revela que Pombal n&atilde;o toma medidas casuisticamente, e que quase todas as medidas por ele tomadas, s&atilde;o claramente tendo em vista um plano temporal al&eacute;m da sua morte.<br /><br />  Em carta ao Cardeal da Mota, de Fevereiro de 1742, podemos destacar:<br /><br />  1)apenas o com&eacute;rcio permite custear uma boa marinha, que por sua vez permite manter a posse dos territ&oacute;rios, fundamentais a esse mesmo com&eacute;rcio; e que esse com&eacute;rcio pode ser potenciado por companhias quer em n&uacute;mero de viagens organizadas (que aumenta) quer pela onerosidade dos encargos com estas viagens, para a Coroa, (que diminui);<br /><br />  2)todos os estados que fizeram companhias delas recolheram lucros, assim, adoptar o que por l&aacute; fora se faz &eacute; bom para Portugal, e Pombal j&aacute; nessa altura se prop&otilde;e a emular estes modelos de sucesso contratando quem os possa implementar, e depois passar a depender apenas de recursos, humanos e materiais, procedentes da na&ccedil;&atilde;o.As companhias que falhavam, deviam-no n&atilde;o a erros de princ&iacute;pio, mas de aplica&ccedil;&atilde;o do mesmo, baseada a falha na (in)capacidade dos mercadores e na capacidade de administra&ccedil;&atilde;o, bem superior na companhia que servira de modelo a todas as outras, a holandesa;<br /><br />  3)a admira&ccedil;&atilde;o por Colbert, que foi buscar &agrave; Holanda o know how para lan&ccedil;ar o projecto colonial e comercial franc&ecirc;s; o cuidado a ter com as importa&ccedil;&otilde;es de bens manufacturados das col&oacute;nias que amea&ccedil;avam as manufacturas metropolitanas, e por fim, a elucida&ccedil;&atilde;o de que a pol&iacute;tica protecionista de Colbert fazia parte da guerra econ&oacute;mica que a Fran&ccedil;a tinha de encetar contra ingleses e holandeses.<br /><br />  A isto Pombal focava a no&ccedil;&atilde;o de que ao com&eacute;rcio ultramarino para ser &uacute;til, tinha de ser feito por companhias, e os mercadores teriam de ser formados e capazes no seu of&iacute;cio, o que supomos que chocaria, com a absor&ccedil;&atilde;o dessa fun&ccedil;&atilde;o lucrativa por parte de nobres, e outros privilegiados, como sempre acontecera.<br /><br />  Nesta carta ainda podemos ler a posi&ccedil;&atilde;o na qual Pombal caracteriza os monop&oacute;lios como mal necess&aacute;rio, pois:<br /><br />  a)quanto mais gente houver a comerciar, maior ser&aacute; o tecido comercial do pa&iacute;s;<br /><br />  b)&eacute; mais f&aacute;cil a ocorr&ecirc;ncia de fraudes num sistema monopolista nas quais se perturba o interesse de muitos por causa de uns poucos.<br /><br />  Pombal informou-se e estudou as causas do porqu&ecirc; de tantos estados apostarem num sistema comercial monopolista, e conclui que os princ&iacute;pios contra o monop&oacute;lio comercial est&atilde;o correctos apenas n&atilde;o se aplicando ao com&eacute;rcio com a India porque era muito lucrativo, em virtude da grande procura por tais produtos.<br /><br />  Essa procura pode ser satisfeita por mercadores nacionais ou estrangeiros.<br /><br />  Se &eacute; satisfeita por estrangeiros, n&atilde;o cresce a marinha nem as manufacturas, nem os vassalos do reino, ou seja h&aacute; uma fuga de divisas.<br /><br />  Se a procura for sustentada por nacionais, h&aacute; acumula&ccedil;&atilde;o de divisa no pr&oacute;prio reino, estancando a fuga de capitais, e conseguindo melhores juros.<br /><br />  O monop&oacute;lio &eacute; assim a forma proposta por Pombal para evitar a descapitaliza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s atrav&eacute;s da compra dos bens orientais.<br /><br />  &laquo;(&hellip;)he h&uacute; puro e manifesto ganho ficar dentro do reyno o mesmo ouro que ali&aacute;s iria augmentar o poder do outro que o recebesse, tanto quanto diminuiria as for&ccedil;as do que o pagasse.&raquo;<a href="#_ftn7" title="">[7]</a><br /><br />  Al&eacute;m de que a empresa ultramarina perigosa e onerosa como por exemplo a carreira da India, exige meios e planeamentos que apenas a Coroa pode providenciar.<br /><br />  Assim, &eacute; not&oacute;ria a preocupa&ccedil;&atilde;o de Pombal desde o in&iacute;cio, em dotar Portugal das infraestruturas n&atilde;o apenas para uma moderniza&ccedil;&atilde;o, mas para um processo crescente de autonomiza&ccedil;&atilde;o cultural e econ&oacute;mica em rela&ccedil;&atilde;o a pot&ecirc;ncias estrangeiras, com particular destaque para a Inglaterra.<br /><br />  N&atilde;o sendo ing&eacute;nuo, sabia que isto n&atilde;o podia ser feito na sua gera&ccedil;&atilde;o, nem em duas ou tr&ecirc;s gera&ccedil;&otilde;es, e portanto n&atilde;o consideramos paradoxal como Monteiro, que Pombal advogasse uma estrita neutralidade nos conflitos continentais, e quisesse manter boas rela&ccedil;&otilde;es com Inglaterra. Seria a &uacute;nica maneira de manter a integridade imperial, e at&eacute; nacional, at&eacute; ao momento em que por si s&oacute; o pa&iacute;s a pudesse garantir por si mesmo.<br /><br />  Assim, Pombal comprava tempo e afastava amea&ccedil;as como a que se efectivou em Salsete, sem nunca se inibir de manifestar a soberania do estado portugu&ecirc;s como se comprova no caso dos oficiais ingleses presos por levarem para bordo ouro amoedado.<br /><br />  V&aacute;rios exemplos podiam carregar este trabalho mostrando a preocupa&ccedil;&atilde;o extra temporal, isto &eacute;, nem casu&iacute;stica nem ego&iacute;sta na inten&ccedil;&atilde;o da ac&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica do Marqu&ecirc;s.<br /><br />    Conclus&atilde;o<br /><br />  &nbsp;&nbsp;O absolutismo r&eacute;gio n&atilde;o pode ser lido com os &lsquo;olhos democr&aacute;ticos&rsquo; hodiernos.<br /><br />  Num plano de resumo, Pombal moderniza as estruturas do Estado depurando-o dos contrapoderes medievais na origem, como o clero(jesu&iacute;tas) e a nobreza, fomenta a economia capitalista moderna pr&eacute; industrial, cria o embri&atilde;o da classe m&eacute;dia que se vai eclipsando assim que se desenvolve a alta burguesia nascida do ouro brasileiro, &eacute; o autor do ensino p&uacute;blico em Portugal, que na altura compreendia o ciclo completo pr&eacute; universit&aacute;rio, institui o primeiro concurso p&uacute;blico em Portugal, e talvez no mundo para&hellip;professores, que recebiam soldo, e substitui a cultura escol&aacute;stica nas universidades por uma orienta&ccedil;&atilde;o mais moderna e &lsquo;laica&rsquo;.<br /><br />  N&atilde;o precisou de recorrer a empr&eacute;stimos.<br /><br />  Estes s&atilde;o apenas alguns exemplos de que aquilo que fez n&atilde;o obedeceu apenas a objectivos casu&iacute;sticos de interesse pessoal, de valido.<br /><br />  Grande parte do que intendeu, mesmo como Monteiro afirma, que n&atilde;o tinha efeitos marcantes para os progressos ulteriores, lan&ccedil;ou as bases da reforma de largo espectro que culmina em 1910 em Portugal. Mais do que o epis&oacute;dio da &lsquo;Viradeira&rsquo;, a for&ccedil;a de bloqueio destas medidas vision&aacute;rias foi o profundo atraso estrutural que Portugal tinha j&aacute; desde as ced&ecirc;ncias da Restaura&ccedil;&atilde;o, com a eterna pol&iacute;tica de malabarismos no jogo de poderes europeu, ao qual acresceu a tamb&eacute;m end&eacute;mica falta de progresso civil, com a pol&iacute;tica de castas a perpetuar-se, pese embora algumas tens&otilde;es, mas pouco abalada, como por exemplo aconteceu no resto da Europa, via guerras religiosas, ou por motivos de sucess&atilde;o. Mais do que a localiza&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica perif&eacute;rica, foi a estrutura social conservadora que impediu a moderniza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s, ou a atrasou de forma constante e irrevog&aacute;vel.<br /><br />  Portugal sob o olhar hist&oacute;rico, encontrava-se condenado &agrave; sua pequenez no sentido de que n&atilde;o conseguiria por si s&oacute; operar novas formas de renova&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica e social, por for&ccedil;a de divis&otilde;es internas e oscila&ccedil;&otilde;es no que concerne &agrave; diplom&aacute;tica com a restante Europa, fosse de participa&ccedil;&atilde;o, fosse de afastamento. Tinha andado portanto, &agrave; vela.<br /><br />  Sem querer for&ccedil;ar aquilo que as fontes permitem, podemos tomar Pombal, como norteado de um prop&oacute;sito claramente contra este fatalismo, e de um esp&iacute;rito, que contra isso nada concederia.<br /><br />  Pombal, Portugal, de um ponto de vista diplom&aacute;tico tiveram de operar muito, de negociar, de estabelecer consensos. Mas na pol&iacute;tica econ&oacute;mica pombalina desde logo os primeiros escritos, &eacute; not&oacute;ria a ideia de que s&oacute; atrav&eacute;s de uma sustenta&ccedil;&atilde;o auton&oacute;mica de for&ccedil;a, poderia libertar-se Portugal dessa pequenez, relativa a ter de negociar a sua exist&ecirc;ncia enquanto estado e imp&eacute;rio, como sempre o havia feito. Para isso havia que modernizar a sua estrutura, atrav&eacute;s do com&eacute;rcio, vital para a circula&ccedil;&atilde;o do imp&eacute;rio, e no plano metropolitano estabelecer aquilo que mais do que os ex&eacute;rcitos, era a express&atilde;o de for&ccedil;a das na&ccedil;&otilde;es europeias, a pujan&ccedil;a do tecido produtivo.<br /><br />  &Eacute; talvez for&ccedil;ada a express&atilde;o, mas foi quase uma corrida &agrave;s divisas, uma corrida aos territ&oacute;rios, atrav&eacute;s da concorr&ecirc;ncia e da riqueza se forjavam as na&ccedil;&otilde;es e os respectivos graus de bem estar das popula&ccedil;&otilde;es. A luta contra os outros poderes instalados n&atilde;o seria apenas contra uma estrutura social classista (que continuou a existir) mas tamb&eacute;m contra uma sociedade da supersti&ccedil;&atilde;o que teimava em deixar crescer aquela classe m&eacute;dia empreendedora (grande parte da qual de etnia ou religi&atilde;o diferente da maioria) que os Pa&iacute;ses Baixos haviam recolhido, bem como a Inglaterra das migra&ccedil;&otilde;es e guerras europeias e que eram agora a espinha do sucesso comercial colonial.<br /><br />  Tomadas as coisas sob este prisma, podemos tomar o per&iacute;odo pombalino, cristalizado em torno da figura de Pombal, mas para o mal e para o bem, composto de muitas outras personagens, como a realiza&ccedil;&atilde;o deste prop&oacute;sito auton&oacute;mico, a que a obra de More, &lsquo;Utopia&rsquo;, na biblioteca de Sebasti&atilde;o Jos&eacute;, n&atilde;o deixa de dar um toque ir&oacute;nico.<br /><br />  Assim, a nosso ver, no m&iacute;nimo, a proposta de an&aacute;lise de Monteiro, &eacute; parcelar, e redutora, embora suscite caminhos de pesquisa muito interessantes. Peca naquilo que pretende, ser uma abordagem inovadora, facilmente comprovado na progress&atilde;o dos discursos historiogr&aacute;ficos em Portugal, e parece-nos ser exactamente essa tentativa de inova&ccedil;&atilde;o, que torna a narrativa de Monteiro em algumas partes um placebo &agrave; arte de fazer Hist&oacute;ria.<br /><br />                                Anexo 1<br /><br />  I<br /><br />  Se esta apresenta&ccedil;&atilde;o do discurso hist&oacute;rico segundo o observador, &eacute; algo de intr&iacute;nseco &agrave; historiografia, tamb&eacute;m o &eacute; a obra de encomenda. Designo como obra de encomenda, todo o trabalho com maior ou menor rigor cient&iacute;fico, cuja fun&ccedil;&atilde;o &eacute; apresentar as j&aacute; enunciadas e inescap&aacute;veis formas de fazer hist&oacute;ria (relembre-se sempre referidas &agrave; esfera subjectiva do sujeito) para al&eacute;m daquilo que a &lsquo;prova&rsquo; ou fonte permite. &Eacute; no sil&ecirc;ncio da zona de ningu&eacute;m&nbsp; (constitu&iacute;da pela mir&iacute;ade de formas &nbsp;de como se pode apresentar um texto, seja na escolha das palavras ou na escolha de como descrever o assunto) que se exerce o insidioso exerc&iacute;cio de express&atilde;o da tarefa que se pretende cumprir. <br /><br />  Ou seja, a obra de encomenda (aqui expressa sem qualquer sentido pejorativo e f&aacute;cil de distinguir pois &eacute; geralmente escrita de forma muito assertiva) est&aacute; no plano al&eacute;m do discurso - na inten&ccedil;&atilde;o que a anima, e no plano do discurso em que exerce de forma criteriosa as escolhas necess&aacute;rias ao n&iacute;vel do texto, e ao n&iacute;vel do que &eacute; ou n&atilde;o omitido, na total justifica&ccedil;&atilde;o da inten&ccedil;&atilde;o de partida. Se &eacute; Hist&oacute;ria? &Eacute;, mas &eacute; uma forma de tornar a Hist&oacute;ria um instrumento de interpela&ccedil;&atilde;o do real e interven&ccedil;&atilde;o no real, que s&oacute; colhe o erro de fazer exactamente aquilo que critica noutras correntes de pensamento, a saber, o enviesamento ideol&oacute;gico. Sob a capa de cientificidade.<br /><br />  &nbsp;A obra escolhida para se poder analisar esta velha e repetida forma de atrav&eacute;s da &lsquo;cientifica&ccedil;&atilde;o&rsquo; do discurso hist&oacute;rico, passar uma mundivid&ecirc;ncia parcelar, &eacute; a &lsquo;Hist&oacute;ria de Portugal&rsquo;, da responsabilidade de Rui Ramos, Bernardo Sousa, e Nuno Monteiro.<br /><br />  Obra sa&iacute;da das tipografias em 2009, e que na capa descreve os autores como professores universit&aacute;rios da nova gera&ccedil;&atilde;o de historiadores. <br /><br />  Esta &lsquo;nova gera&ccedil;&atilde;o&rsquo; de universit&aacute;rios parece ainda animada das velhas conflitualidades ideol&oacute;gicas, entre (simplificando) direita e esquerda.<br /><br />  Por todo o amplo conjunto de assuntos que encontramos nesta obra, encontramos desabafos que revelam esta inten&ccedil;&atilde;o ou ressentimento nos bastidores, com particular evid&ecirc;ncia nos assuntos mais pr&oacute;ximos do momento presente, como aqueles em que por exemplo s&atilde;o identificados Miguel Torga, com uma esquerda moderada, revelando ao mesmo tempo o desconhecimento ou da obra de Miguel Torga ou do que seja isso de &lsquo;esquerda moderada&rsquo;. <br /><br />  A identifica&ccedil;&atilde;o (sob a capa da caracteriza&ccedil;&atilde;o) de um retrocesso do marxismo intelectual, o que quer que isso seja, d&aacute; o mote a toda a leitura que subjaz nesta Hist&oacute;ria de Portugal.<br /><br />  Como revela ainda um preocupante &nbsp;no que concerne &agrave;s din&acirc;micas filos&oacute;ficas que ocorreram desde os anos 80, (seja em nomes como Noam Chomsky ou Robert Kurz, ou Slavoj &#381;i&#382;ek, e outros, s&oacute; para citar alguns nomes) e que continuam activas no momento presente. Esta leitura menos conseguida n&atilde;o &eacute; portanto uma prova de menor compet&ecirc;ncia ou conhecimento, pois a n&iacute;vel das refer&ecirc;ncias e esquematiza&ccedil;&atilde;o da mat&eacute;ria, todos os autores s&atilde;o excelentes, met&oacute;dicos e rigorosos, mas &eacute; prova da tal orienta&ccedil;&atilde;o da interpreta&ccedil;&atilde;o para o j&aacute; referido enviesamento, &agrave; direita, se tivermos que colocar um r&oacute;tulo.<br /><br />  &laquo;Na discuss&atilde;o p&uacute;blica, deu-se a partir da d&eacute;cada de 1980 a reconstitui&ccedil;&atilde;o de uma cultura conservadora de matriz liberal e democr&aacute;tica, por via inglesa e americana. Nas ci&ecirc;ncias sociais, agora instaladas nas universidades, o fim das &laquo;grandes teorias&raquo; coincidiu com um grande refinamento t&eacute;cnico, at&eacute; por via dos m&eacute;todos de pesquisa e tratamento de dados permitidos pelos meios inform&aacute;ticos, em direc&ccedil;&atilde;o a um empirismo rigoroso.&raquo;p.771<br /><br />  &nbsp;<br /><br />  Em frases como estas facilmente se apreendem as orienta&ccedil;&otilde;es, ou escolhas do autor respons&aacute;vel. N&atilde;o se deve em Hist&oacute;ria, ser-se t&atilde;o assertivo que se deite fora o que pode ajudar a problematizar.&nbsp; A cultura conservadora de matriz liberal e democr&aacute;tica sempre existiu em Portugal e na Europa, a par com outras, como por exemplo a cultura progressista de matriz liberal e democr&aacute;tica ou a cultura progressista de matriz estatal e democr&aacute;tica&hellip;quando se enuncia a origem anglo sax&oacute;nica desta reconstitui&ccedil;&atilde;o ent&atilde;o claramente no tempo citado, 1980 fala-se da heran&ccedil;a ideol&oacute;gica bem definida. Aqui o Historiador passou do campo da Hist&oacute;ria, novamente, para o da ideologia pol&iacute;tica, tudo num par&aacute;grafo onde esta passagem entre o marxismo intelectual e a cultura liberal e democr&aacute;tica culmina em palavras como &lsquo;refinamento&rsquo; e express&otilde;es como &nbsp;&lsquo;empirismo rigoroso&rsquo; querendo dar uma sensa&ccedil;&atilde;o de evolu&ccedil;&atilde;o. Num tratamento que se pretendesse o mais neutro poss&iacute;vel, bastaria enunciar a revolu&ccedil;&atilde;o inform&aacute;tica, tecnol&oacute;gica como a ferramenta que permitiu a abertura de novas formas de tratamento dos dados e dos contextos, bem como a fal&ecirc;ncia das economias comunistas e respectivos sistemas pol&iacute;ticos. A posi&ccedil;&atilde;o individual do historiador quando afirma, &laquo;o fim das &lsquo;grandes teorias&rsquo;&raquo; &eacute; uma posi&ccedil;&atilde;o ditada e al&eacute;m do subjectivo. O que se compreende com especial clareza.<br /><br />  II<br /><br />  Esta estranheza na narrativa de Monteiro &eacute; fecunda em todo o tema por ele abordado, que possa ter algum car&aacute;cter inspirador para a historiografia nacionalista, numa clara ac&ccedil;&atilde;o anti iconoclasta por parte do autor. E por isso mesmo, parcelar e dogm&aacute;tica. Mas n&atilde;o &eacute; s&oacute; isso, h&aacute; uma preocupa&ccedil;&atilde;o doentia com a descri&ccedil;&atilde;o de certos n&iacute;veis sociais, com a quase total exclus&atilde;o de outros e alguns polvilhados de omiss&otilde;es incompreens&iacute;veis.<br /><br />  A narrativa hist&oacute;rica de Monteiro caracteriza-se pelo quase total eclipse de uma classe popular enquanto sujeito hist&oacute;rico, por qualquer descri&ccedil;&atilde;o que mesmo remotamente possa evocar algum tipo de m&eacute;rito ou compet&ecirc;ncia a toda a empresa ou personagem louvada pela historiografia nacional, &nbsp;e por uma escolha inquinada do que deve ser enaltecido na narrativa, como prova o exemplo que de seguida daremos.<br /><br />  Para Monteiro, no seu trabalho de s&iacute;ntese, &eacute; importante dispensar a evolu&ccedil;&atilde;o da titulatura r&eacute;gia, com uma contabiliza&ccedil;&atilde;o de 12 linhas e o desabafo acerca da prol&iacute;fera discuss&atilde;o historiogr&aacute;fica que originou esta din&acirc;mica pelos &lsquo;s&eacute;culos vindouros&rsquo;.<a href="#_ftn8" title="">[8]</a><br /><br />  No entanto, um acontecimento de menor import&acirc;ncia como &eacute; o evento militar que abriu a porta &agrave; hegemonia europeia a n&iacute;vel imperial, mais concretamente ao imp&eacute;rio colonial em rede que era o portugu&ecirc;s, e posteriormente &agrave;s iniciativas de outras pot&ecirc;ncias, como holandeses, franceses e ingleses, dedica Monteiro, umas 9 linhas de texto, com breve alus&atilde;o a uma &lsquo;batalha ao largo de Diu&rsquo;.<a "mso-footnote-id:="" ftn9"="" href="#_ftn9" title="">[9]</a><br /><br />  Parece ser irrelevante de um ponto de vista hist&oacute;rico, uma batalha naval que abriu caminho &agrave; Europa, que do ponto de vista dos meios envolvidos se pode comparar a Trafalgar, e do ponto de vista da estrat&eacute;gia a Lepanto ou Salamina.<br /><br />  Nem o facto de ter sido a &uacute;nica batalha naval que culminou com o total aniquilamento da frota inimiga na Hist&oacute;ria, parece merecer mais que a leve descri&ccedil;&atilde;o &lsquo;numa batalha ao largo de Diu&rsquo;<br /><br />  &nbsp;<br /><br />  Anexo 2<br /><br />    Resumindo a apresenta&ccedil;&atilde;o de Nuno Monteiro o contexto desta tem&aacute;tica &eacute; o seguinte:<br /><br />  I-&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Crescente descontentamento com a situa&ccedil;&atilde;o daquela &eacute;poca, subsumida sob uma fac&ccedil;&atilde;o ou perspectiva dos &lsquo;reformistas&rsquo; e cuja base de descontentamento assentaria em:<br /><br />  a)as consequ&ecirc;ncias do Tratado de Methuen e os efeitos para com as manufacturas do reino;<br /><br />  b)a import&acirc;ncia simb&oacute;lica e efectiva excessiva das institui&ccedil;&otilde;es religiosas na vida e administra&ccedil;&atilde;o do reino;<br /><br />  c)percep&ccedil;&atilde;o negativa da voca&ccedil;&atilde;o agr&aacute;ria at&eacute; por contraposi&ccedil;&atilde;o para com o desenvolvimento t&eacute;cnico aplicado em outras partes da Europa;<br /><br />  d)mau acolhimento para com a actua&ccedil;&atilde;o e exist&ecirc;ncia da Inquisi&ccedil;&atilde;o;<br /><br />  e)necessidade sentida de renova&ccedil;&atilde;o curricular e pedag&oacute;gica, que em grande parte estaria nas m&atilde;os dos jesu&iacute;tas;<br /><br />  f)cr&iacute;ticas e mal estar para com a postura e import&acirc;ncia social de certas classes, em particular da alta nobreza, num claro choque civilizacional, onde a burguesia come&ccedil;a a emergir em toda a sua amplitude.<br /><br />  Esta &eacute; a base que d&aacute; justifica&ccedil;&atilde;o &agrave; emerg&ecirc;ncia de uma no&ccedil;&atilde;o de atraso portugu&ecirc;s, amplificado sobretudo por cidad&atilde;os protestantes estrangeiros como forma de menoriza&ccedil;&atilde;o religiosa, e que acaba por ser interiorizada pelos portugueses. A este atraso se dar&aacute; o nome gen&eacute;rico de decad&ecirc;ncia. <br /><br />  II-&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ainda segundo Monteiro, o atraso seria sobretudo cultural e n&atilde;o das mentalidades, o que de certa forma n&atilde;o deixa de ser t&atilde;o curioso como incompreens&iacute;vel;<br /><br />  Assim, ao que anteriormente foi exposto, a quest&atilde;o comercial, social, educativa, associada a um sentimento de degrada&ccedil;&atilde;o/altera&ccedil;&atilde;o dos costumes e da pr&oacute;pria civiliza&ccedil;&atilde;o faz surgir a &acirc;nsia ou inquieta&ccedil;&atilde;o, o sentimento que se exprimiria numa necessidade de reforma, e cujo cl&iacute;max foi o terramoto de 1755, e que serviu como catarse colectiva.<br /><br />  III-&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pombal, n&atilde;o pertencendo &agrave; primeira nobreza, ganha estatuto com expediente prolixo que exerce no &acirc;mbito das suas fun&ccedil;&otilde;es, e acima de tudo com um casamento que lhe elevar&aacute; o estatuto social, naquilo que aparece caracterizado por Nuno Monteiro, como a escalada de um anacronismo, elevado a tiranete, tal &eacute; a nossa interpreta&ccedil;&atilde;o da forma como Monteiro enunciada a chegada ao poder do Marqu&ecirc;s de Pombal.<br /><br />    Enunciamos esta contraposi&ccedil;&atilde;o relativamente &agrave; narrativa de Monteiro, n&atilde;o por cr&iacute;tica &agrave; interpreta&ccedil;&atilde;o dos factos, mas de como os apresenta sem posterior explana&ccedil;&atilde;o.<br /><br />  Assim, n&atilde;o fica claro porque &eacute; que h&aacute; uma viragem &lsquo;extraordin&aacute;ria&rsquo; da posi&ccedil;&atilde;o de Pombal:<br /><br />  &laquo;(&hellip;)fazendo-o passar de patrocinado pelos Jesu&iacute;tas a campe&atilde;o europeu da luta pela extin&ccedil;&atilde;o da companhia(&hellip;)&raquo;, quando&nbsp; previamente enuncia que &laquo;Dizia-se que era protegido pelos Jesu&iacute;tas(&hellip;)&raquo; enumerando uma poss&iacute;vel converg&ecirc;ncia de interesses contra o Tratado de Madrid.<br /><br />  Monteiro n&atilde;o diz quem, onde ou porque dizia isto que se &lsquo;Dizia&rsquo;, mas n&atilde;o perde linhas a citar Gomes Freire de Andrade, sem se dar ao trabalho igualmente historiogr&aacute;fico de contextualizar o que citou. No fundo, enunciar se foi de facto uma invers&atilde;o de posi&ccedil;&atilde;o, como a mesma se consumou, e porqu&ecirc;. Seria mais esclarecedor que &laquo;Entretanto, o antijesuitismo tornara-se parte integrante das orienta&ccedil;&otilde;es do ministro de D.Jos&eacute;.&raquo;, dando a no&ccedil;&atilde;o ao leitor de que o Marqu&ecirc;s de Pombal, se deixou levar por uma paix&atilde;o contra os Jesu&iacute;tas, apenas porque estes &lsquo;(&hellip;) hesitavam em abandonar os Sete Povos, deixando os &iacute;ndios Guaranis &agrave; sua sorte&raquo;.<br /><br />  Assim se pode considerar que por omiss&atilde;o ou realce a determinados aspectos, se pode insidiosamente tecer um significado, por detr&aacute;s das letras. Julgamos que um historiador deve apresentar todas as possibilidades em cada assunto e n&atilde;o ficar-se apenas por aquelas que lhe consolidam a sua opini&atilde;o.<br /><br />  A caracteriza&ccedil;&atilde;o de Pombal como simples valido,&nbsp; poder-se-&aacute; compreender a muitas luzes especialmente &agrave;quela que como &eacute; o caso, pretende diminuir a import&acirc;ncia hist&oacute;rica de uma personagem analisada. Tamb&eacute;m neste seguimento podemos ler&nbsp; que:<br /><br />  &laquo;Como todos os validos ou favoritos, apossou-se da pessoa f&iacute;sica do rei, neste caso em circunst&acirc;ncias bem complicadas, e tratou de consolidar o seu papel, firmando &lsquo;o alicerce da sua privan&ccedil;a&rsquo;&raquo;.<br /><br />  &Aacute; caracteriza&ccedil;&atilde;o de dado a paix&otilde;es, aparece Pombal como oportunista. Oportunista que &laquo;Dando as &lsquo;provid&ecirc;ncias&rsquo;, tornou-se senhor da situa&ccedil;&atilde;o.&raquo;, especialmente quando todos os outros se preocupam em escapar e ele permanece junto do rei.<br /><br />  A demoli&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica de Monteiro, feita &agrave; actua&ccedil;&atilde;o de Pombal revela at&eacute; pormenores caricatos como a compara&ccedil;&atilde;o da recupera&ccedil;&atilde;o de uma cidade encetada por Pombal, com as tentativas anteriores, por parte de &laquo;(&hellip;)engenheiros militares nos espa&ccedil;os coloniais.&raquo; e cujo significado ainda tentamos perceber na medida em que o aproveitamento de experi&ecirc;ncia adquirida parece ser algo de censur&aacute;vel, tendo em conta que a recupera&ccedil;&atilde;o da cidade ficou assim projectada no tempo recorde de 3 meses, e no entanto, Monteiro real&ccedil;a o facto de que demorou demasiado tempo a conclu&iacute;rem-se as obras no terreno, facto desmentido por fontes coevas.<br /><br />  Outro exemplo do programa impl&iacute;cito no discurso de Monteiro, tem que ver com o estilo cuidado da sua escrita.<br /> O discurso de Monteiro &eacute; constru&iacute;do sob sustent&aacute;culo aleivosamente subtil, na medida em que se concatenam express&otilde;es e ritmos que &agrave; primeira vista parecem ing&eacute;nuos exerc&iacute;cios de estilo, mas que para qualquer olhar mais atento e pesquisa menos superficial, se revelam inquinadas por uma inten&ccedil;&atilde;o alheia &agrave; cientificidade. <br /> As realidades, ou personagens hist&oacute;ricas n&atilde;o devem ser idolatradas ou desprezadas tanto quanto o historiador n&atilde;o se deve abster de exprimir a sua posi&ccedil;&atilde;o ponderada sobre os factos que apresenta sobre o respectivo assunto. A seriedade da ci&ecirc;ncia hist&oacute;rica exige que tal deva ser feito &lsquo;&agrave;s claras&rsquo; assumindo o historiador o peso das suas teses que desde logo identifica para o leitor.<br /> A prosa de Monteiro, &eacute; assim &lsquo;cobarde&rsquo; no sentido em que se esconde n&atilde;o numa identifica&ccedil;&atilde;o de ideias, mas numa oculta&ccedil;&atilde;o por detr&aacute;s de um estilo, e cujo exemplo pode ser notado nas repeti&ccedil;&otilde;es, omiss&otilde;es ou escolha de palavras e express&otilde;es para comunicar algo.<br /> A t&iacute;tulo demonstrativo, atente-se nas (pelo menos) cinco vezes em que ao longo do texto repete a ac&ccedil;&atilde;o de Sebasti&atilde;o Carvalho no sentido de refor&ccedil;ar o seu poder pessoal, espalhadas pelo cap&iacute;tulo respectivo. Estas repeti&ccedil;&otilde;es criam literariamente o clima, para se interpretar Pombal como (novamente) o tal valido do s&eacute;culo XVII presente no s&eacute;culo XVIII e cuja motiva&ccedil;&atilde;o de ac&ccedil;&atilde;o, aparentemente pouco mais seria que obter quanto mais poder que fosse poss&iacute;vel.<br /> Por todo o texto, (in)felizmente encontramos contudo, falhas que nos permitem desconstruir a forma de Monteiro fazer Hist&oacute;ria, desde logo pelas confus&otilde;es ou contradi&ccedil;&otilde;es grosseiras que deixa como migalhas que s&atilde;o pistas.<br /> Por exemplo, Pombal, segundo Monteiro, ocupava-se em:<br /> 1)Consolidar o seu estatuto;<br /> 2)Reconstruir Lisboa;<br /> 3)Reorganizar o aparelho comercial.<br /> Menciona mesmo estes eixos, como &lsquo;convic&ccedil;&otilde;es program&aacute;ticas&rsquo; da ac&ccedil;&atilde;o pombalina, na p&aacute;gina 366, para depois j&aacute; em jeito de balan&ccedil;o se contradizer anunciando que &lsquo;(...)muito do que fez foi decidido em fun&ccedil;&atilde;o das circunst&acirc;ncias.&rsquo; na p&aacute;gina 375.<br /><br />  Afinal, Pombal seguia um programa ou ia &lsquo;&agrave; vela&rsquo;?<br /><br />              Bibliografia<br /><br />  &nbsp;<br /><br />  Ramos, R.,&nbsp;&nbsp; Sousa, B.,&nbsp; Monteiro, N., Hist&oacute;ria de Portugal, A esfera dos livros, Lisboa, 2009(5&ordf; edi&ccedil;&atilde;o)<br /><br />  Melo, S., Carta de Of&iacute;cio a Marco Ant&oacute;nio de Azevedo Coutinho em 24 de Setembro de 1741 &ndash; Escritos econ&oacute;micos de Londres (1741-1742), Biblioteca Nacional, Lisboa, 1986<br /><br />  Melo, S., Carta ao Cardeal da Mota em 19 de Fevereiro de 1742 &ndash; Escritos econ&oacute;micos de Londres (1741-1742), Biblioteca Nacional, Lisboa, 1986<br /><br />  Castro, A., A Pol&iacute;tica econ&oacute;mica do Marqu&ecirc;s de Pombal e a sociedade portuguesa do s&eacute;culo XVIII, Revista de Hist&oacute;ria das Ideias - Vol. IV, Coimbra, 1982<br /><br />  Braz&atilde;o, E., Pombal e os Jesu&iacute;tas, Revista de Hist&oacute;ria das Ideias - Vol. IV, Coimbra, 1982<br /><br />  <br />        <a href="#_ftnref1" title="">[1]</a> Melo, S., Carta ao Cardeal da Mota em 19 de Fevereiro de 1742 &ndash; Escritos econ&oacute;micos de Londres (1741-1742), Biblioteca Nacional, Lisboa, 1986,p.146<br /><br />        <a href="#_ftnref2" title="">[2]</a> Braz&atilde;o, E., Pombal e os Jesu&iacute;tas, Revista de Hist&oacute;ria das Ideias - Vol. IV, Coimbra, 1982,p. 345<br /><br />        <a href="#_ftnref3" title="">[3]</a> Ramos, R.,&nbsp;&nbsp; Sousa, B.,&nbsp; Monteiro, N., Hist&oacute;ria de Portugal, A esfera dos livros, Lisboa, 2009(5&ordf; edi&ccedil;&atilde;o),p.376<br /><br />        <a href="#_ftnref4" title="">[4]</a> Ramos, R.,&nbsp;&nbsp; Sousa, B.,&nbsp; Monteiro, N., Hist&oacute;ria de Portugal, A esfera dos livros, Lisboa, 2009(5&ordf; edi&ccedil;&atilde;o),p.377<br /><br />        <a href="#_ftnref5" title="">[5]</a> Ramos, R.,&nbsp;&nbsp; Sousa, B.,&nbsp; Monteiro, N., Hist&oacute;ria de Portugal, A esfera dos livros, Lisboa, 2009(5&ordf; edi&ccedil;&atilde;o),p.375<br /><br />        <a href="#_ftnref6" title="">[6]</a> Ramos, R.,&nbsp;&nbsp; Sousa, B.,&nbsp; Monteiro, N., Hist&oacute;ria de Portugal, A esfera dos livros, Lisboa, 2009(5&ordf; edi&ccedil;&atilde;o)p.366<br /><br />        <a href="#_ftnref7" title="">[7]</a> Melo, S., Carta ao Cardeal da Mota em 19 de Fevereiro de 1742 &ndash; Escritos econ&oacute;micos de Londres (1741-1742), Biblioteca Nacional, Lisboa, 1986,p.147<br /><br />      <a href="#_ftnref8" title="">[8]</a> Ramos, R.,&nbsp;&nbsp; Sousa, B.,&nbsp; Monteiro, N., Hist&oacute;ria de Portugal, A esfera dos livros, Lisboa, 2009(5&ordf; edi&ccedil;&atilde;o),p.215<br /><br />        <a href="#_ftnref9" title="">[9]</a> Ramos, R.,&nbsp;&nbsp; Sousa, B.,&nbsp; Monteiro, N., Hist&oacute;ria de Portugal, A esfera dos livros, Lisboa, 2009(5&ordf; edi&ccedil;&atilde;o)p.217<br /><br />        ditar .</font><!--[if gte mso 9]>     Normal   0         21         false   false   false      PT   X-NONE   X-NONE                                                                                                     <![endif]--></blockquote>]]></content:encoded></item></channel></rss>