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<channel><title><![CDATA[Raistapartisse - Ensaios de Filosofia Pol&iacute;tica]]></title><link><![CDATA[http://www.raistapartisse.com/ensaios-de-filosofia-poliacutetica]]></link><description><![CDATA[Ensaios de Filosofia Pol&iacute;tica]]></description><pubDate>Sun, 31 Mar 2024 18:06:50 -0700</pubDate><generator>Weebly</generator><item><title><![CDATA[De veludo, revoluções]]></title><link><![CDATA[http://www.raistapartisse.com/ensaios-de-filosofia-poliacutetica/de-veludo-revolues]]></link><comments><![CDATA[http://www.raistapartisse.com/ensaios-de-filosofia-poliacutetica/de-veludo-revolues#comments]]></comments><pubDate>Tue, 03 Sep 2013 22:55:00 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.raistapartisse.com/ensaios-de-filosofia-poliacutetica/de-veludo-revolues</guid><description><![CDATA[&nbsp;I &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Qualquer interessado por assuntos de cultura, sabe identificar na matrizcultural europeia, duas influ&ecirc;ncias conformadoras, a grega e a judaica, no que concerne &agrave; forma como olhamos o tempo. O tempo circular grego e o tempo linear judaico-crist&atilde;o est&atilde;o na  base da nossa contextualiza&ccedil;&atilde;o do tempo, do fen&oacute;meno temporal.    No tempo grego, observa-se a circularidade, a repeti&cc [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div class="paragraph" style="text-align:justify;">&nbsp;I<br /><span></span><br /><span></span><br /> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<br /> Qualquer interessado por assuntos de cultura, sabe identificar na matriz<br />cultural europeia, duas influ&ecirc;ncias conformadoras, a grega e a judaica, no que concerne &agrave; forma como olhamos o tempo.<br /><span></span><br /><span></span><br /> O tempo circular grego e o tempo linear judaico-crist&atilde;o est&atilde;o na <br /> base da nossa contextualiza&ccedil;&atilde;o do tempo, do fen&oacute;meno temporal. <br /> <br /><span></span><br /><span></span><br /> <br /> No tempo grego, observa-se a circularidade, a repeti&ccedil;&atilde;o dos <br /> mesmos ciclos, o eterno retorno projecta a sua sombra sobre a realidade fazendo cair como cacimba matinal, a n&aacute;usea do sem sentido, propositada na Gr&eacute;cia antiga. Cumpria a fun&ccedil;&atilde;o de fazer sedimentar na mente colectiva uma forma de olhar tr&aacute;gica e &eacute;pica sobre o mundo, sobre o real.&nbsp;<br /> <br />Por isso eram os gregos considerados as crian&ccedil;as da Antiguidade <br /> mas com uma sabedoria fatal, sobre a exist&ecirc;ncia (como o notam Plat&atilde;o e <br /> Nietzsche).<br /><br />&nbsp;A cultura judaica organiza linearmente o tempo entre o G&eacute;nesis e <br /> a Revela&ccedil;&atilde;o, e depois desta inven&ccedil;&atilde;o, j&aacute; n&atilde;o era poss&iacute;vel voltar atr&aacute;s. <br /> <br /><span></span><br /><span></span><br /> J&aacute; n&atilde;o conseguimos nem queremos conseguir planear uma vida em <br /> que aos avan&ccedil;os corresponder&atilde;o os retrocessos, ao esfor&ccedil;o corresponder&aacute; mais esfor&ccedil;o e mart&iacute;rio (e hoje S&iacute;sifo, T&acirc;ntalo, Atlas, Filoctetes, etc. s&atilde;o cada vez mais incompreens&iacute;veis para a nossa forma de pensar) num absurdo que nenhuma ac&ccedil;&atilde;o justifica a n&atilde;o ser numa din&acirc;mica de auto-sacrif&iacute;cio abnegado.<br /><span></span><br /><span></span><br /> <br /> O tempo linear &eacute; devedor de uma divindade monote&iacute;sta, e essencialmente <u>hist&oacute;rica</u>.<br /><span></span><br /><span></span><br /> Jeov&aacute; &eacute; o Deus dos judeus, um deus do tempo, da narrativa, e o <br /> &uacute;nico. &Eacute; um deus que se revela na Hist&oacute;ria e revela o seu plano, o de santificar o seu nome perante a Humanidade. Esta concep&ccedil;&atilde;o de tempo &eacute; portanto uma inven&ccedil;&atilde;o sem paralelo, &eacute; uma temporalidade teleol&oacute;gica, se bem que a antiguidade grega tenha tido tentativas de conforma&ccedil;&atilde;o teleol&oacute;gica como &eacute; o caso da Teoria das Ideias plat&oacute;nica ou as eras de Hes&iacute;odo. A pr&oacute;pria narrativa que inaugura a historiografia europeia, de Her&oacute;doto, nos apresenta uma bela narrativa, &aacute;rida, circular, exausta pelos ciclos que descreve.<br /><span></span><br /><span></span><br /> <br /> II<br /><span></span><br /><span></span><br /> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<br /> A mundivid&ecirc;ncia ocidental contempor&acirc;nea, como em tudo o que lucrativo,<br />apropria-se e conforma na mente colectiva, os piores lados de ambas as<br />concep&ccedil;&otilde;es de tempo. O tempo do eterno retorno e da mortifica&ccedil;&atilde;o c&iacute;clica sem sentido aparece nos pequenos ciclos, na abordagem sacrificial permanente que se incute no compromisso ontol&oacute;gico dos sujeitos, sejam as oito horas de trabalho abstracto at&eacute; &agrave; reforma, os avan&ccedil;os e retrocessos civis, a ideia t&atilde;o crist&atilde; de progresso, com a sua aparente evolu&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica, que se fosse verdadeira j&aacute; teria reformulado v&aacute;rias vezes os la&ccedil;os sociais que ainda perduram, inut&aacute;veis&nbsp;como s&oacute; a biologia evolutiva pode comprovar.<br /><span></span><br /><span></span><br /> <br /> &nbsp;Tudo o que implique sacrif&iacute;cio sem sentido do sujeito, abnega&ccedil;&atilde;o ac&eacute;fala e conformidade, e temos a circularidade do tempo como dado adquirido e <br /> inquestion&aacute;vel.<br /><span></span><br /><span></span><br /> No entanto, sem um aditivo, esta metaf&iacute;sica n&atilde;o funcionaria, pois a sua efic&aacute;cia depende da ades&atilde;o &agrave; mundivid&ecirc;ncia ovina que prop&otilde;e. Para que <br /> o hamster n&atilde;o se sinta na gir&acirc;ndola o tempo linear da Revela&ccedil;&atilde;o revela-se como um tempo de transla&ccedil;&atilde;o em &oacute;rbita el&iacute;ptica no qual as eras parecem querer reflectir um avan&ccedil;o efectivo do curso humano, ainda que corresponda apenas ao movimento aparente do Sol.<br /><span></span><br /><span></span><br /> <br /> <br /> <br /> <br /> Ou seja, o sujeito &eacute; manipulado a aceitar a vida como uma sucess&atilde;o c&iacute;clica de dores e prazeres, geralmente dores, com os exerc&iacute;cios de auto-sacrif&iacute;cio maquinal, mas para que n&atilde;o se sinta preso como pi&atilde;o em caixa de <br /> sapatos, projecta-se a esperan&ccedil;a para um futuro n&atilde;o muito pr&oacute;ximo, submissa &agrave;s vicissitudes de uma suposta natureza humana, que facilmente o sujeito aceita devido a uma compreens&atilde;o superficial do mundo, incutida a palmadinhas nas costas atrav&eacute;s de uma m&aacute;quina de propaganda, e de uma historiografia que prefere narrar uma sucess&atilde;o de revolu&ccedil;&otilde;es, e n&atilde;o as condi&ccedil;&otilde;es do surgimento dessas revolu&ccedil;&otilde;es ou os processos contrarrevolucion&aacute;rios consequentes.<br /><span></span><br /><span></span><br /> <br /> Onde todo e qualquer avan&ccedil;o real nas condi&ccedil;&otilde;es de vida e concretiza&ccedil;&atilde;o da sua possibilidade &eacute; feito a conta gotas. Esta cren&ccedil;a na roda da fortuna e na lentid&atilde;o do progresso social, &eacute; a maior viol&ecirc;ncia, do maior cinismo, e a maior condi&ccedil;&atilde;o de menoriza&ccedil;&atilde;o e aliena&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o pois est&aacute; na <br /> base de um compromisso ontol&oacute;gico que justifica o conservadorismo, de duas formas.<br /><span></span><br /><span></span><br /> Uma, que consiste em embotar a linha vermelha da revolta, aquela <br /> que ultrapassada nos obriga a n&atilde;o continuarmos passivos, a outra que consiste em olhar para as coisas, para os eventos como uma ordem lenta e inexor&aacute;vel, quase independente da vontade humana, onde a tradi&ccedil;&atilde;o desempenha uma import&acirc;ncia determinante e grave.<br /><span></span><br /><span></span><br /> <br /> Apenas no rompimento deste compromisso ontol&oacute;gico se pode <br /> almejar fazer nova revolu&ccedil;&atilde;o. S&oacute; atrav&eacute;s da viol&ecirc;ncia pode isto ser <br /> poss&iacute;vel.<br /><span></span><br /><span></span><br /> No caso concreto portugu&ecirc;s, o conforto do compromisso ontol&oacute;gico, isto &eacute;, a cren&ccedil;a acarinhada por maior parte da popula&ccedil;&atilde;o acerca de um funcionamento do mundo, faz sempre de cada protesto, um exerc&iacute;cio de vaidade civil, onde se joga segundo as regras do nosso carrasco. Isto &eacute;, mira-se a resid&ecirc;ncia do Presidente da Rep&uacute;blica ao som de cantorias, agendam-se greves para conveni&ecirc;ncia de feriados e fins de semana, opta-se por um exerc&iacute;cio de preocupa&ccedil;&atilde;o pela imagem perante os outros. O que retira raz&atilde;o de ser ao protesto. Se se protesta, isto &eacute;, se uma indigna&ccedil;&atilde;o for&ccedil;a a que se fa&ccedil;a algo, ent&atilde;o &eacute; para se fazer. Caso contr&aacute;rio mais vale conter a raiva, ou as palavras de ordem que exigem uma revolu&ccedil;&atilde;o mitigada na qual o sistema opressivo n&atilde;o desaparece mas paga um pouco melhor para se continuar no torpor de tempos recentes, que moldaram o presente.<br /><span></span><br /><span></span><br /> III<br /><span></span><br /><span></span><br /> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<br /> As revolu&ccedil;&otilde;es s&atilde;o c&iacute;clicas, o que mostra uma din&acirc;mica, n&atilde;o como se faz crer, de progresso, de maior liberdade em maior liberdade, mas de din&acirc;micas de restaura&ccedil;&atilde;o, pois se hipoteticamente a hist&oacute;ria &eacute; uma luta de classes, a explora&ccedil;&atilde;o do homem pelo homem &eacute; a vit&oacute;ria da classe conservadora. <br /> <br /><span></span><br /><span></span><br /> Dividir a aten&ccedil;&atilde;o por acontecimentos marcantes, como se se <br /> tratasse de uma marcha da liberdade embota a no&ccedil;&atilde;o de que h&aacute; uma exig&ecirc;ncia de uma revolu&ccedil;&atilde;o final e duradoura, uma revolu&ccedil;&atilde;o que acabe com todas as revolu&ccedil;&otilde;es, caso contr&aacute;rio n&atilde;o vale a pena sair &agrave; rua. De que adianta mitigar a explora&ccedil;&atilde;o vil do homem pelo seu semelhante, com pre&ccedil;o de sangue, se no espa&ccedil;o de umas gera&ccedil;&otilde;es tudo volta quase ao mesmo, como S&iacute;sifo empurrando o rochedo montanha acima.<br /><span></span><br /><span></span><br /> Surge assim a erup&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria como o romper da <br /> normalidade, como se o uso da guilhotina fosse por si s&oacute; um ponto de viragem um anacronismo da pasmaceira de todos os per&iacute;odos n&atilde;o revolucion&aacute;rios, anteriores e posteriores.<br /><span></span><br /><span></span><br /> <br /> &Eacute; assim a ac&ccedil;&atilde;o violenta apresentada como um rompimento de um <br /> suposto tecido de normalidade, um abuso excessivo e intoler&aacute;vel decorrente de um sistema que porventura seria corrig&iacute;vel. <br /><span></span><br /><span></span><br /> N&atilde;o &eacute; apresentada na maior parte das vezes, como a viol&ecirc;ncia que <br /> decorre da viol&ecirc;ncia da demiss&atilde;o de revolu&ccedil;&otilde;es anteriores, ou como a <br /> consequ&ecirc;ncia da insidiosa ac&ccedil;&atilde;o de explora&ccedil;&atilde;o e&nbsp; opress&atilde;o.<br /><span></span><br /><span></span><br /> <br /> Tendemos a esquecer que qualquer ponto de partida &eacute; j&aacute; um ponto <br /> de chegada e que essa erup&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria &eacute; a coac&ccedil;&atilde;o da consci&ecirc;ncia de que n&atilde;o se pode mais ficar passivo perante a viol&ecirc;ncia que em surdina, <br /> implicitamente sempre gera estes focos de al&iacute;vio.<br /><span></span><br /><span></span><br /> S&atilde;o assim todas as revolu&ccedil;&otilde;es a v&aacute;lvula de escape legitimadora da opress&atilde;o do homem pelo homem, perante a qual se tentam estabelecer leis que impe&ccedil;am ou mitiguem efeitos, que mais n&atilde;o fazem que dissipar o calor da revolta, ingenuamente, a lei &eacute; uma armadilha para os parvos. A lei mais constante de todos os c&oacute;digos &eacute; curiosamente ou n&atilde;o a lei da <br /> propriedade.<br /><span></span><br /><span></span><br /> IV<br /><span></span><br /><span></span><br /> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<br /> Podemos ficar imp&aacute;vidos e serenos perante a fatalidade destes ritmos hist&oacute;ricos e sociais, ou podemos afiar a nossa indigna&ccedil;&atilde;o.<br /><span></span><br /><span></span><br /> O princ&iacute;pio de raz&atilde;o suficiente aplicado ao sujeito, como raz&atilde;o <br /> da sua pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia, e o princ&iacute;pio de identidade como formulador da sua (sujeito) unicidade, irrepetibilidade, forjam uma ideia que torna inaceit&aacute;vel a nossa passividade.<br /><span></span><br /><span></span><br /> <br /> Quantas vidas no passado, presente e futuro, foram perdidas para que nos deixemos dar ao luxo de nada fazer sen&atilde;o passar &lsquo;como c&atilde;o por vinha <br /> vindimada&rsquo; perante a repeti&ccedil;&atilde;o dos mesmos ritmos de revolu&ccedil;&atilde;o/reac&ccedil;&atilde;o? <br /><span></span><br /><span></span>Como aceitar a perda de algo &uacute;nico e repet&iacute;vel, como a vida de um ser, que se sacrificou pelo amor aos outros? <br /><span></span><br /><span></span>Como viver com a culpa de deixar assorear o seu legado?<br /><span></span><br />Como se pode viver sabendo que a nossa depend&ecirc;ncia da aliena&ccedil;&atilde;o, produzir&aacute; futuramente novas v&iacute;timas?<br /><span></span><br /><span></span><br /> <br /> A aceita&ccedil;&atilde;o cobarde desta inac&ccedil;&atilde;o &eacute; sin&oacute;nimo <u>sine qua non</u> de um <br /> compromisso ontol&oacute;gico no qual se aceita a opress&atilde;o, se aceita que outros lutem ou tenham lutado por n&oacute;s, que &eacute; natural haver fluxos e refluxos na hist&oacute;ria pol&iacute;tica e social da Humanidade.<br /><span></span><br /><span></span><br /> <br /> Quem &eacute; afinal o verdadeiro ser civilizado, aquele que tanto vai <br /> a uma manifesta&ccedil;&atilde;o mostrar a sua indigna&ccedil;&atilde;o para outros verem como vai &agrave; praia em dia de legitima&ccedil;&atilde;o eleitoral de poderes corruptos, ou aquele que se organiza e almeja de forma violenta a n&atilde;o repeti&ccedil;&atilde;o dessa corrup&ccedil;&atilde;o, muito al&eacute;m da viol&ecirc;ncia contra lojas, mas de forma realmente insurrecta e <br /> organizada?...<br /><span></span><br /><span></span><br /> <br /> O cavalgar a sociedade por parte das elites motivadas pela <br /> manuten&ccedil;&atilde;o do status quo, &eacute; o grande Terror, a hecatombe lenta, inexor&aacute;vel, por vezes ado&ccedil;ada com a corrup&ccedil;&atilde;o do conforto, a eugenia met&oacute;dica, c&iacute;nica e at&aacute;vica que deveria estar muito al&eacute;m da citada linha vermelha da nossa indigna&ccedil;&atilde;o. <br /><span></span>O que est&aacute; na base desta viol&ecirc;ncia subterr&acirc;nea mas omnipresente baseia-se no anci&atilde;o mecanismo de fingir que est&aacute; tudo bem at&eacute; ao crime, quando na realidade os crimes s&atilde;o sempre resultado da corrup&ccedil;&atilde;o, e assim cada revolu&ccedil;&atilde;o &eacute; a sua pr&oacute;pria anula&ccedil;&atilde;o se n&atilde;o for uma revolu&ccedil;&atilde;o final, pois cada revolu&ccedil;&atilde;o &eacute; o atestado de que a anterior n&atilde;o resultou, e que todas as que se seguir&atilde;o apenas ser&atilde;o tempor&aacute;rias.<br /><span></span><br /><span></span>V<br /><span></span>A corros&atilde;o da conformidade, a corros&atilde;o do conforto s&atilde;o os v&iacute;cios que corroem a Rep&uacute;blica e&nbsp;a Europa. Vejo os&nbsp;pav&otilde;es ret&oacute;ricos que servem os partidos que t&ecirc;m ganho com quase 4 d&eacute;cadas de 'democracia respons&aacute;vel', com fatos de seda e camisas engomadas, com base no rosto e cabelos bem penteados, unhas bem tratadas e pompa nos gestos e pergunto-me se a democracia ocidental ter&aacute; hoje a mesma convic&ccedil;&atilde;o nos princ&iacute;pios que tem com a apar&ecirc;ncia. Os oprimidos vivem narcoticamente sob&nbsp;o v&iacute;cio do ju&iacute;zo, julgam pela apar&ecirc;ncia, para&nbsp;poderem decidir quem lhes trata do futuro, ou assim pensam.&nbsp;<br /><span></span>Presos ao tempo linear do progresso cient&iacute;fico a conta gotas planeado, e ao tempo circular papagueado como condi&ccedil;&atilde;o de uma exist&ecirc;ncia que tem de ser paga, vejo os servos que acham que t&ecirc;m algo a perder, al&eacute;m da sua dignidade no amor ao pr&oacute;ximo, o seu conforto e mundo de espect&aacute;culo, com gordura circulando nas veias e infantilidades saindo da boca. A maior conquista do senhor foi conseguir que o servo se apercebesse da pris&atilde;o de veludo e tivesse vontade dela sair.<br /><span></span>A liberdade paga-se e Robespierre sabia-lo.<br /><span></span>E paga-se caro.<br /><span></span><br />&nbsp;VI<br /><span></span><br /><span></span><br /> <br /> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<br /> A maior viol&ecirc;ncia consiste n&atilde;o no operar da guilhotina, mas na manipula&ccedil;&atilde;o da&nbsp;apreens&atilde;o da realidade, que apenas inicia outro ciclo opressivo. O burgu&ecirc;s odeia a popula&ccedil;a tomada como truculenta e dada &agrave; viol&ecirc;ncia que mais n&atilde;o escorre sen&atilde;o do desespero, e da falta de esperan&ccedil;a no futuro bem como da cren&ccedil;a clara de viver um momento &uacute;nico, mas que no c&ocirc;mputo geral das coisas tem efeitos limitados.<br /><span></span><br /><span></span><br /> Todo e qualquer acto que tenha provocado estorvo ou dolo ao <br /> cidad&atilde;o, por parte do Estado &eacute; um acto de viol&ecirc;ncia. O dar a outra face &eacute; criar a condi&ccedil;&atilde;o para a pr&oacute;xima viol&ecirc;ncia. Manifesta&ccedil;&otilde;es pac&iacute;ficas s&atilde;o dar a outra face. Repito, dar a outra face &eacute; a viol&ecirc;ncia que gera a pr&oacute;xima agress&atilde;o. <br /> <br /><span></span><br /><span></span><br /> <u>Uma resposta n&atilde;o violenta &agrave; viol&ecirc;ncia &eacute; um acto violento gerador de viol&ecirc;ncia.</u><br /><span></span><br /><span></span><br /> <br /> A aceita&ccedil;&atilde;o desta viol&ecirc;ncia &eacute; uma contribui&ccedil;&atilde;o para a <br /> guilhotina. <br /><span></span><br /><span></span><br /> Robespi&eacute;rre n&atilde;o foi violento. N&atilde;o teve escolha, de acordo com o <br /> seu projecto de acabar com a viol&ecirc;ncia. Violentos s&atilde;o os promotores de <br /> revolu&ccedil;&otilde;es, os que criam as condi&ccedil;&otilde;es e os que as promovem. Os governos <br /> conservadores s&atilde;o os promotores de revolu&ccedil;&otilde;es, lenta e ardilosamente adequando ao tempo do progresso falacioso a legisla&ccedil;&atilde;o que mais n&atilde;o &eacute; que a ferramenta supostamente neutra do contrato social. A cada conquista, os supostos representantes sedimentam-se acomodam-se e organizam-se, labutando pacientemente para contornar a brutalidade das conquistas <br /> revolucion&aacute;rias.<br /><span></span><br /><span></span><br /> &Eacute; mais vis&iacute;vel uma cabe&ccedil;a decepada que um sem abrigo que morre <br /> an&oacute;nimo na rua, e por isso dizemos que preferimos tudo ao caos, mas &eacute; apenas uma quest&atilde;o de visibilidade do real.<br /><span></span><br /><span></span><br /> Nada se alterar&aacute; sem viol&ecirc;ncia. A viol&ecirc;ncia &eacute; o &uacute;nico argumento <br /> politicamente &uacute;til, afirmar o contr&aacute;rio &eacute; cair na ingenuidade que garante a <br /> opress&atilde;o, <u>ergo</u> a viol&ecirc;ncia.<br /><span></span><br /><span></span><br /> VII<br /><span></span><br /><span></span><br /> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<br /> O c&eacute;lebre debate entre Cunhal e Soares, s&oacute; foi vital no seu contexto, n&atilde;o nos argumentos apresentados. Mas foi por causa da presen&ccedil;a de duas for&ccedil;as dispostas a exercer viol&ecirc;ncia. Estas massas s&atilde;o invocadas atrav&eacute;s de ideologia, isto &eacute; atrav&eacute;s da apreens&atilde;o manipulada da realidade a que o sujeito escolhe aderir. A op&ccedil;&atilde;o posterior pelo at&eacute; hoje resistente comportamento respons&aacute;vel, pelo arco governativo, em detrimento do mais radical dos radicalismos revolucion&aacute;rios, criou as condi&ccedil;&otilde;es para a viol&ecirc;ncia que sentimos hoje, e cujo principal efeito &eacute; j&aacute; n&atilde;o acreditar em revolu&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o seja a semi final, a guerra civil.<br /><span></span><br /><span></span><br /> A aceita&ccedil;&atilde;o do compromisso ontol&oacute;gico dominante ou generalizado, <br /> &eacute; uma viol&ecirc;ncia que cada sujeito &uacute;nico e irrepet&iacute;vel faz a si mesmo e aos outros por amor do seu conforto e seus grilh&otilde;es.<br /><span></span><br /><span></span><br /> Coloquem-se de novo cravos nas espingardas, ou deixem-se <br /> donzelas pernoitar em fotos com elementos policiais instrumentais ao servi&ccedil;o da repress&atilde;o, ao fazermos o que sempre temos feito, vamos obter o que sempre temos obtido.<br /><span></span><br /><span></span></div>]]></content:encoded></item></channel></rss>